quinta-feira, 3 de maio de 2012
norma curta
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
quarta-feira, 13 de abril de 2011
simplesmente
que é mentira que eu queria que você somente soubesse
o que acontece é que simplesmente
eu te amo transbordantemente
e de repente a gente sente
que quase tudo rima com tente
repelente
água quente
dor de dente
mas a tentativa anda descontente
se contentando em parecer ausente
e a vida vai acostumando
e acostumando a vida vai seguindo em frente
segunda-feira, 21 de março de 2011
A verdadeira história da cidade tão pequena (ou: mais um conto de fadas pós-moderno)
A cidade tão pequena ficava no interior sertanejo de um extenso país latino-americano. Era tempo de eleição municipal e o candidato que liderava as pesquisas havia prometido construir a primeira estação de metrô da cidade. Apesar de a população local não entender o motivo de se criar uma estação de metrô em uma cidade tão pequena, sabia-se que era coisa moderna, de metrópole, logo era coisa boa.
As pesquisas estavam certas. Uma semana após o início do mandato do prefeito, iniciou-se a construção da estação. A população estava admirada com toda aquela obra: centenas de homens diuturnamente trabalhando, toneladas e toneladas de insumos, tratores, guinchos e muito barulho. Parece que tem até engenheiro!, comentavam alguns.
Depois de inquietos quatro anos, a estação foi inaugurada. Um ex-BBB foi convidado para a inauguração, o que encheu a cidade tão pequena de orgulho. O povo ia à estação todos os dias. Crianças, jovens, adultos e velhos visitavam a grande obra. O prefeito se gabava de que era a mais moderna estação da cidade tão pequena. Mas não é a única?, perguntavam-se os vanguardistas.
Após certo tempo, vieram à tona questões referentes à necessidade de se ter um trem, já que começaram a surgir alguns boatos da esquerda revolucionária, rapidamente abafado pela elite dominante, de que a obra custara milhões aos cofres públicos, que teria sido super-faturada e que não tinha utilidade alguma.
O marqueteiro do prefeito baseou a campanha no argumento de que somente o seu candidato teria competência para construir um trem, uma vez que tal político fora responsável pela construção da única estação da cidade tão pequena. Não deu outra, foi reeleito em primeiro turno. Ele rouba mas faz!, era o que se comentava pelos bares, escolas e campos de várzea da cidade tão pequena.
A construção do grande e magnífico trem, orçada em milhões de dólares, deixou a cidade tão pequena agitada: centenas de homens diuturnamente trabalhando, toneladas e toneladas de insumos, tratores, guinchos e muito barulho. Parece que tem até engenheiro!, novamente comentavam alguns.
Quando quatro anos mais tarde o trem ficou finalmente pronto, a população passava dias e noites dentro dos vagões. Era a grande diversão do povo daquela cidade tão pequena. Nos finais de semana havia filas enormes. Homens vendiam algodão-doce, outros rapadura e cachaça. É o trem mais glorioso de nossa cidade tão pequena!, gabava-se o prefeito em discurso ao lado da grande celebridade Geisy Arruda.
Depois de alguns meses surgiu um absurdo boato alarmista, segundo o qual de nada adiantava ter um trem se ele não poderia se locomover, visto que na cidade tão pequena havia somente uma estação. É claro que o partido do prefeito, sempre preocupado com o welfare state, rapidamente lançou a candidatura de seu sucessor com base no know how partidário na criação da primeira e única estação da cidade. A campanha foi um sucesso. O novo prefeito também ganhou com facilidade no primeiro turno.
Depois da construção da segunda estação houve a necessidade de se construir um túnel ligando ambas, o que garantiu a manutenção do partido no poder. Quatro anos depois, por conta de um outro boato criado pela oposição, notou-se que seria preciso a colocação de trilhos. Assim, a cada nova obra, uma nova eleição. Ou vice-versa.
E sempre neste ciclo, respeitando a soberania popular exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, a cidade tão pequena foi feliz para sempre.
terça-feira, 15 de março de 2011
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
2030
Escolhíamos diversos profissionais que tinham o único trabalho de adivinhar como seria o mundo de hoje.
Mas, em algum momento dessa trajetória, nós erramos.
Lá pelos anos 2000, fomos bombardeados com constantes ameaças sobre o fim dos tempos provocado principalmente por alterações climáticas.
Aqui em 2030, a temperatura não aumentou consideravelmente, as geleiras não derreteram e os ursos polares permanecem hibernando tranquilamente.
A emissão de gases carbônicos se manteve a níveis regulares e o efeito estufa foi contido.
Parece que o ser humano finalmente encontrou formas de combater o que parecia ser o mal do século.
Mas..
Se eu pudesse olhar para trás, teria alertado para um perigo que acabou provando ser muito maior do que pensávamos.
Era tão óbvio.
As escolas pregavam que todos eram especiais e toda a revolução, principalmente digital, apontava para o fim do mercado de massa.
O avanço musical fez com que as canções ficassem quase individuais: Os tocadores de MP3 eram praticamente uma identidade particular e os fones de ouvido nas ruas criavam um casulo impedindo a interação com outros seres humanos.
Os trabalhos eram um capítulo a parte.
Baias dividas, responsabilidades bem definidas e claro, tudo formalizado por e-mail à espera do primeiro deslize para apontar o dedo.
Ainda contávamos com projetos colaborativos, trabalhos voluntários e espaços públicos que promoviam interações à la ágoras gregas, mas infelizmente eram pequenas iniciativas que não passaram de modismos.
As maiores companhias do mundo ainda careciam de personalidade e alma. Os valores estavam bem apresentados na entrada dos escritórios, mas poucos se importavam com as pessoas.
Quem me dera se os empresários tivessem se inspirado mais em Ben e Jerrys. Ou em pessoas que pouco tinham a ver com empresas, mas que conseguiam de alguma forma influenciar muitos que estavam ao seu redor.
E o resultado desse cenário se traduziu no mundo em que vivemos hoje.
As formas de entretenimento e arte ficaram relegadas a poucos. Temos alguns mecenas poderosos que pagam diretamente pela produção de conteúdo tão personalizado que pode ser apreciado apenas pelo seu receptor.
E acreditem se quiser: Apesar de não termos mais museus, obras continuam sendo roubadas e revendidas para o seu único dono.
Também temos poucos artistas, já que a demanda por obras está consideravelmente menor.
A máxima de entrega de conteúdo por anunciantes permanece verdadeira, mas hoje em dia, a base de clientes é tão segmentada que cada consumidor recebe uma mensagem específica.
Alguns fornecedores tornaram-se tão eficientes que cortaram o homem do meio (as marcas) e agora falam diretamente com cada consumidor.
A televisão, o rádio e os jornais não existem mais. Hoje, cada um recebe conteúdo de interesse vindo de sua rede de contatos e de seus feeds.
Restaurantes? Desapareceram. Depois de tantos anos de avanços científicos, descobrimos que cada ser humano precisa de uma dieta própria.
O automóvel já matou mais seres humanos do que todas as grandes guerras somadas e ainda assim, continua sendo a principal forma de locomoção
É estranho passar esse depoimento por vídeo para vocês no futuro, mas essa foi um das poucas coisas que permanece imutável na nossa sociedade: A combinação de voz com fotos ainda prossegue como uma das formas mais potentes de comunicação.
Deixo esse documento audiovisual escondido na esperança de que alguém possa ouvir minhas palavras.