sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

2030

Há 20 anos atrás, nós pensávamos que sabíamos exatamente como seria o futuro.

Escolhíamos diversos profissionais que tinham o único trabalho de adivinhar como seria o mundo de hoje.

Mas, em algum momento dessa trajetória, nós erramos.

Lá pelos anos 2000, fomos bombardeados com constantes ameaças sobre o fim dos tempos provocado principalmente por alterações climáticas.

Aqui em 2030, a temperatura não aumentou consideravelmente, as geleiras não derreteram e os ursos polares permanecem hibernando tranquilamente.

A emissão de gases carbônicos se manteve a níveis regulares e o efeito estufa foi contido.

Parece que o ser humano finalmente encontrou formas de combater o que parecia ser o mal do século.

Mas..

Se eu pudesse olhar para trás, teria alertado para um perigo que acabou provando ser muito maior do que pensávamos.

Era tão óbvio.

As escolas pregavam que todos eram especiais e toda a revolução, principalmente digital, apontava para o fim do mercado de massa.

O avanço musical fez com que as canções ficassem quase individuais: Os tocadores de MP3 eram praticamente uma identidade particular e os fones de ouvido nas ruas criavam um casulo impedindo a interação com outros seres humanos.


Os trabalhos eram um capítulo a parte.

Baias dividas, responsabilidades bem definidas e claro, tudo formalizado por e-mail à espera do primeiro deslize para apontar o dedo.

Ainda contávamos com projetos colaborativos, trabalhos voluntários e espaços públicos que promoviam interações à la ágoras gregas, mas infelizmente eram pequenas iniciativas que não passaram de modismos.

As maiores companhias do mundo ainda careciam de personalidade e alma. Os valores estavam bem apresentados na entrada dos escritórios, mas poucos se importavam com as pessoas.

Quem me dera se os empresários tivessem se inspirado mais em Ben e Jerrys. Ou em pessoas que pouco tinham a ver com empresas, mas que conseguiam de alguma forma influenciar muitos que estavam ao seu redor.

E o resultado desse cenário se traduziu no mundo em que vivemos hoje.

As formas de entretenimento e arte ficaram relegadas a poucos. Temos alguns mecenas poderosos que pagam diretamente pela produção de conteúdo tão personalizado que pode ser apreciado apenas pelo seu receptor.

E acreditem se quiser: Apesar de não termos mais museus, obras continuam sendo roubadas e revendidas para o seu único dono.

Também temos poucos artistas, já que a demanda por obras está consideravelmente menor.

A máxima de entrega de conteúdo por anunciantes permanece verdadeira, mas hoje em dia, a base de clientes é tão segmentada que cada consumidor recebe uma mensagem específica.

Alguns fornecedores tornaram-se tão eficientes que cortaram o homem do meio (as marcas) e agora falam diretamente com cada consumidor.

A televisão, o rádio e os jornais não existem mais. Hoje, cada um recebe conteúdo de interesse vindo de sua rede de contatos e de seus feeds.

Restaurantes? Desapareceram. Depois de tantos anos de avanços científicos, descobrimos que cada ser humano precisa de uma dieta própria.

O automóvel já matou mais seres humanos do que todas as grandes guerras somadas e ainda assim, continua sendo a principal forma de locomoção

É estranho passar esse depoimento por vídeo para vocês no futuro, mas essa foi um das poucas coisas que permanece imutável na nossa sociedade: A combinação de voz com fotos ainda prossegue como uma das formas mais potentes de comunicação.

Deixo esse documento audiovisual escondido na esperança de que alguém possa ouvir minhas palavras.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Blananismo

Blananismo

por BLÃ
"saindo do metrô São Bento após um dilúvio, dois homens vendem capas de chuva. O primeiro diz:
-Olha a capa! 2 reais!
o segundo diz:
-2, nada! A minha é 1 real!
novamente o primeiro, um tanto revoltado, manda:
-É? E o cú, ta valendo quanto?!"


por Yara Oliveira

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Último Apelido

Que me desintegre a Rosa de Hiroshima antes mesmo que o sistema nervoso consiga entregar a mensagem em meu peito.

Que, em pleno ground zero, seu globo de plasma me varra para outras latitudes; Nagasaki, Nagoia, Osaka...

Que me desintegre a Rosa de Hiroshima, fazendo-me farelo de carbono num nanosegundo.

Sirva-me dessa colher de urânio, mulher. Não quero mais existir. Queime-me em sua fogueira atômica.

Que as porções coloridas do espectro de sua explosão sirvam para deixar sua fotografia ainda mais estarrecedora.

Que seus raios gama penetrem rapidamente em meus cromossomos, tornando-me, num milisegundo, em uma aberração.

Que suas reações de fissão me tragam o alvorecer da morte num piscar de olhos verdes.
E que aquele início de agosto de erradas decisões não mais apareça nos anais da história.


Exploda com todos seus recursos, Rosa de Hiroshima.
Exploda, mas não se esqueça de Pearl Harbor e seus silenciosos aviões.
Exploda e saiba que toda bomba, ao explodir, liberta luz.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O cumprimento teve um abraço sincero. Minha vontade era ter prolongado tal nobre ato, queria mesmo ter soltado o mais aflito dos suspiros em teu ombro e ter acalmado, assim, minha pulsação. Mas tudo não passou mesmo de uma ato solene, de solidão.

As palavras foram poucas, os olhares quase marcados, mas cada vez que ia de encontro ao mais saudoso globo ocular meu mundo te revelava.

Me corrigiu como de costume, mas dessa vez nem me expliquei, suspirei manso e um pouco tristonho e ao fim, concordei.

Quis rir das bobagens que eu insisto em dizer; e riu, mas nem o teu sorriso me deixava contente.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Futuro do Pretérito

Entendo tua agonia, futuro do pretérito.
Sempre acompanhado de ti um "se" condicional insiste em te trancafiar na escura cela das hipóteses.

Se tu fosses, nós seríamos...
Se tu quisesses, nós poderíamos...
Se tu sorrisses, nós formaríamos...

Ah, futuro do pretérito, tu nunca passastes de um tempo natimorto, triste, sedento pela chave que te libertaria da dúvida. Poderíamos, enfim, unir nossas forças temporais, fazer acontecer.
Entendo tua ira, enclausurado tempo verbal, tua solidão e teu enojamento pelo incerto, mas saibas que pouco posso fazer por ti; sou o agora, o hoje, o presente: eu faço, eu sou, eu vivo, eu calo.

Poderíamos ser como causa e consequência, harmoniosos, se não fosses tu o futuro do pretérito, cuja existência nunca se dará sem que a condição permita.
Que fique claro, pois, que não passas de um futuro do passado.
Ultrapassado.
Algo que poderia ser, mas não foi.