Havia chegado, enfim, o momento pelo qual tanto esperara. A inquietude de sua mente se traduzia em transpiração demasiada, pensamentos soterrados uns pelos outros, palavras embaralhadas como letras de uma sopa letrada, cansaço; barba, cabelo e bigode por fazer... Precisava justificar sua recém contratação, mas, sobretudo, precisava provar a si mesmo que era capaz.
Está tenso e sabe que isso pode o atrapalhar. Olha para sala, para as cadeiras, para as pessoas sentadas nelas, para as canetas, para os cadernos; um furacão de pensamentos o atormenta; transpira... Tem a clara sensação de que caso houvesse uma briga entre seu intelecto e seu físico, este último sairia completamente derrotado. A sala já se encontra muito bem povoada; ali estão o Presidente e toda sua equipe. O grão-executivo, aliás, havia começado sua carreira nessa mesma empresa como entregador de malotes, passando pelo cargo de estagiário do departamento fiscal, chefe do suporte a vendas, supervisor de seção, gerente da tesouraria, diretor financeiro até chegar, aos 60 anos, no último estágio da evolução corporativa. Ascensão lenta e constante em uma editora de livros didáticos e acadêmicos, responsável pela impressão de volumes encadernados e transportáveis que permeavam todo período de educação de uma pessoa: 1º, 2º e 3º graus.
Precisa começar sua apresentação. Verifica o aparelho das transparências; tudo ok. Dado o calibre dos executivos que ali estão, é imperativo cumprir o tempo de duração pré-estabelecido para a junta. Posiciona-se frente a todos. Sua boca está seca. Suas pernas chacoalham involuntariamente. Sente que é hora de começar. Após se apresentar, começa:
- Boa tarde. Primeiramente, gostaria de agradecer a presença de todos nessa minha primeira apresentação de projeto.
Para; respira fundo. Sente-se bem, “finalizou a primeira etapa da apresentação”. Segue apresentando um longo cenário econômico do país, números, dados, censos demográficos.... E segue:
- Nesta sala, creio que todos entendem o conceito de segmentação de mercado e, indo além, o conceito de nicho de mercado...
Espera alguma reação dos presentes. Nada acontece. Continua:
- Nesta sala, acredito que todos devem saber o quão interessante é desfrutar de cada fase da vida. A infância e sua ingenuidade, a adolescência e sua rebeldia, a juventude e seus excessos, a idade adulta e sua maturidade... Maturidade essa que nos traz o maior presente de todos: a paternidade. Quantos de vocês têm filhos?
Alguns poucos levantam a mão. Sentem uma mistura de curiosidade com desprezo...
- Nesta sala, quantos se lembram da primeira vez que ouviram seus filhos grunhir alguma palavra? “Mamá, papá, bobô, totô”. Tenta imitar uma criança, péssimo momento.
Três mulheres se manifestam dizendo “eu lembro”. Ao fundo, vê-se um braço procurando olhos para mostrar os ponteiros de um relógio de fabricação pós guerra.
- Como se lembram, foi extremamente gratificante escutar, saindo de nossos rebentos, tais barulhos. E é justamente calcado nessa gratificação que vos apresento o novo conceito em alfabetização infantil. Trata-se de um método que permite que você alfabetize seu filho! Trata-se de um método que ensina você a ensinar seu filho a ler e a escrever. Podem imaginar o quão gratificante isso seria? Ensinar seu filho a redigir? Ensinar seu filho a ler um poeminha pueril? Abrir as portas do conhecimento para que seu filho o explore da melhor maneira possível?
E, esquecendo a afobação do começo de seu discurso, enche-se de confiança e continua:
- Porém, nos dias de hoje, quem são as pessoas que possuem o tempo necessário para a alfabetização de uma criança? Eis a pergunta que todos aqui devem estar de fazendo.
O presidente escutava, ou, ao menos, fingia.
- Retomando o que há pouco, direcionaremos esse novo produto a um nicho de mercado que possui alto poder aquisitivo, um nicho que só não é maior pelo tema da alfabetização de seus filhos: são os velejadores solitários!
Alguém da plateia, por mais que tentasse, não contém um riso, que escapa e atinge os ouvidos do interlocutor, que não se deixa abater e continua:
- Os velejadores solitários são pessoas de espírito livre. Velejam por prazer. É como se fossem nômades com moradia fixa. Contraditório, mas real. Normalmente, encantam suas mulheres com seus espíritos aventureiros e acabam por convencê-las a desbravar o mundo em sua companhia. Com a união, sem tardar, aparece o primeiro filho da “nova família” e, com ele, o maior iceberg já visto por esses navegares: como conciliar a paixão inexorável de velejar com a educação do novo filho? A resposta surge com esse projeto que vos apresento agora...
A apresentação continua por longos minutos, com mais uma série de explanações, entusiasmos, perguntas aos que estão presentes, minúcias do projeto, idéias “inovadoras”, etc. Até que, então, nosso jovem chega ao fim de seu discurso. Sente que teve um bom desempenho. E abre para perguntas:
- Alguém tem alguma dúvida, sugestão, crítica a fazer?
Todos parecem perplexos. Faltam palavras ao presidente. A reunião termina. Ninguém se manifesta. Nem ao mesmo sua mente.
Falava sobre velocidade da luz para pessoas que nunca haviam passado de 200km/h. E estava certo de que somente por meio da velocidade da luz chegaria a lugares desconhecidos.
explanações !! vc já havia usado aqui e tive que ficar ouvindo aquele louco repetir, MOGI, Saci, e o que mais teremos por aqui, ainda estar por vir...
ResponderExcluireu comi algumas palavras. depois arrumo.
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