quarta-feira, 3 de março de 2010

Burp!

Existem algumas coisas na vida que são exclusividades do sexo masculino. Pequenas coisas, pequenos atos que, entre nós, são absolutamente normais, inerentes à personalidade de todos os homens.

Entretanto estes mesmos pequenos atos, quando estamos fora de nossos clãs, longe do absolutismo de nossa roda de amizades ou de nossa família, quando na presença de um amigo do seu avô, um colega de trabalho menos próximo, ou uma mulher (e pode ser qualquer uma), não são praticados por nós. Existe uma lei social que não autoriza tão naturais gestos.

Gestos que nos unem. Nos unem como num consentimento entre todos os machos. Nos unem pois nos damos a liberdade de fazer o que bem entendermos entre nós. Se no dia a dia, o convívio social nos impede, encontramos numa roda de amigos o porto seguro para liberar estes reprimidos atos inconscientes.

Não é falta de educação, muito pelo contrário. Durante nossa formação, desde meninos fomos treinados a controlar estes impulsos físicos (quiçá fisiológicos). Cansamos de ouvir esporro, levar tapas e ter nossas bocas ameaçadas por água e sabão. Apesar de não parecer, já sabíamos como o sistema funcionava, mas não necessariamente concordávamos com ele.

E é por isso que quando o bando se reúne, e o espírito coletivo fala mais alto, pronunciamos mais palavrões, coçamos o saco, cuspimos na rua e cutucamos o nariz sem a menor preocupação. Andamos de cueca, comemos comida do chão, bebemos mais e fazemos mais besteiras. Contudo dentre estas e muitas outras modalidades, existe algo que merece destaque: o Arroto.

Ah o Arroto. Arroto com “A” maiúsculo! O Arroto é tão relevante no dia a dia masculino que se torna um novo personagem nestas ocasiões. É como se a entidade Arroto estivesse presente de alguma maneira no ambiente. De vez em quando ele aparece, do meio do nada, e toma a atenção dos presentes , principalmente se o Arroto estava comprimido, querendo sair desde o almoço na casa da sua namorada.

Não importa de onde venha, o Arroto sempre marca sua presença com mais ou menos intensidade. Mesmo que não se esboce nenhuma reação. Você sabe que ele deu as caras, que passou por ali num piscar de olhos. E todos os outros perceberam da mesma forma. Seja como um estopim para gargalhadas, ou precedendo um silêncio estranho, o Arroto carimbou o cartão de ponto mais uma vez.

E porque o Arroto, tão presente em nossas vidas, é tão discriminado no convívio social? O Arroto faz bem. O Arroto te faz sentir alívio de algo que você nem percebia que estava te incomodando. Como uma pedra no sapato, só depois de uma hora com ela debaixo do dedinho, você percebe que está incomodado há 59 minutos.

Dizem que na China e na Índia, as pessoas arrotam em público, sem discriminação e sem olhares feios. Duas culturas milenares, tão ligadas ao bem-estar e ao equilíbrio mental. Locais de origem do Budismo, Confucionismo, Taoísmo e tantas outras religiões.

Talvez esta seja a maior sabedoria que os ancestrais chineses nos deixaram. O tipo de sabedoria que não se encontra em um biscoito da sorte.

Às vezes as coisas andam estranhas. Às vêzes, você não está 100%, mas não sabe explicar o que é. Às vezes, coloca a culpa no coringão ou no seu chefe. Às vezes, você dá uma volta sozinho ou assiste um filme pra relaxar.

Às vezes, você só precisa arrotar.

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